Sempre há coisas inesperadas no caminho de qualquer um, o que torna a vida muito mais interessante. E com eles não foi diferente.
AMORES NA LIXEIRA
Por Ivan Fornerón


Pedro e Letícia trabalhavam no banco há mais de dois anos e sempre se
deram bem, tanto quanto seja possível uma amizade sem segundas intenções
entre um homem e uma mulher. Cada um mantinha seu relacionamento: Pedro
namorava já há 3 anos, enquanto Letícia estava noiva há um ano e meio. Saíam com os amigos do banco, amigos em comum, quase toda sexta-feira, mas nem esses encontros nem a rotina diária do trabalho os aproximavam mais do que a condição de simples colegas.
Foi uma coincidência que os aproximou: terminaram, por razões diversas, seus relacionamentos exatamente no mesmo dia, e foi sobre isso que conversaram
numa dessas sextas-feiras em que o grupo de amigos do banco costumava
se reunir. A partir daí começaram a trocar e-mails e descobriram uma afinidade que não imaginavam ter um com o outro. Não fosse pelo caráter agitado de Pedro que o fazia parecer inconstante, e pela timidez excessiva de Letícia que a tornava mais reservada do que realmente era, certamente o relacionamento de ambos teria passado do universo virtual dos e-mails e ganhado a realidade de um namoro logo nos primeiros meses em que começaram a se corresponder. Mas sempre há coisas inesperadas no caminho de qualquer um, o que torna a vida muito mais interessante. E com eles não foi diferente.
Numa dessas sextas-feiras em que se reuniam entre os colegas do banco, Letícia simplesmente evitou qualquer contato com Pedro, nem mesmo respondia a qualquer pergunta que ele lhe fazia. Esse silêncio de Letícia foi tamanho que, nos dias que se sucederam, Pedro acabou por fazer o mesmo, sem entender coisa alguma, e também a troca de e-mails entre os dois cessou por completo. No banco eram quase mudos e invisíveis um para o outro, falavam apenas coisas que o trabalho exigia. Meses se passaram e o desconforto entre os dois crescia. Pedro até tentou ficar com outras pessoas, mas Letícia não saía da sua cabeça. Ela, por sua vez, uma mudez de pedra, cada vez mais fechada em si mesma, não dava nenhum sinal de conciliação.
O que começou no mês de maio só terminou em dezembro, mês em que
Pedro fazia uma faxina geral em seu computador, principalmente em sua caixa de e-mails. Além do seu trabalho no banco, Pedro mantinha um blog sobre aviação e aeromodelismo, coisas que venerava, e muitas respostas, principalmente as que exigiam alguma pesquisa e investigação, eram deixadas pra depois. Pois foi nessa limpeza de fim de ano que Pedro encontrou uma mensagem de Letícia que ele havia deletado para a lixeira por confundi la com um dos muitos comentários que recebia em seu blog. Ao ler a mensagem,
tímida como Letícia, viu que terminava com uma pergunta que pedia um ‘sim’ ou um ‘não’, e que se não houvesse resposta seria entendida como um ‘não’ e um ‘silêncio definitivo’, Pedro entendeu na hora, feito um soco no estômago, o
motivo daquela mudez corrosiva de meses. Quase chorou de nervoso, mas riu de tanto alívio.
O fim? Basta dizer que passaram o Natal juntos, e estão cada vez mais juntos,
pelo menos até agora. Ele é de peixes, ela, de escorpião, portanto, outros silêncios virão e outros e-mails deletados também.

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