Os desafios da Sustentabilidade
Responsabilidade social e cidadania são virtudes essenciais
para uma comunidade sustentável

Por Waldir Martins



Mais do que uma simples palavra, a ideia de sustentabilidade a cada dia ganha
maior relevância no cotidiano das grandes metrópoles, onde o desafio para conciliar desenvolvimento e preservação do meio ambiente se intensifica.

Em uma cidade como São Paulo, isto implica em encontrar alternativas para questões fundamentais como a redução dos níveis de pobreza, maior mobilidade urbana, desenvolvimento de produtos sustentáveis, coleta seletiva do lixo, controle de poluição, ocupação do espaço urbano, construções sustentáveis e muitas outras.

A imobilidade urbana

Com sua histórica falta de planejamento e ocupação completamente caótica, a capital paulista tem na falta de mobilidade urbana uma das principais faces da ausência de sustentabilidade que predomina na cidade. E os resultados são desastrosos. Estudos realizados pelo prof. Rodrigo Queiroz, da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), no ano de 2008, apontam que 20% do Produto Interno Bruto da cidade são perdidos nos congestionamentos.

Mas não é apenas o excesso de veículos que é o responsável por tamanho desperdício. A violência e falta de consciência dos motoristas também contribuem de forma substantiva para a construção desse número. Segundo Antônio Carlos Bento, coordenador Grupo de Manutenção Automotiva, organismo que reúne entidades do setor de reposição de autopeças, a cada hora nas ruas e avenidas de São Paulo, 26 veículos param por problemas mecânicos resultantes da falta de manutenção. “Um veículo quebrado na Marginal Tietê, pode provocar três quilômetros de congestionamento em apenas 15 minutos”, afirma o especialista

Um modelo de transporte sustentável

Para o arquiteto e professor Nabil Bonduki, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), a questão da mobilidade é fundamental quando se fala em sustentabilidade, porque extrapola o problema do tráfego de veículos e pedestres. “A mobilidade urbana está ligada à questão do automóvel e da redução do seu uso, mas traz junto consigo muitos outros elementos. A questão da energia, da poluição e do espaço que o carro ocupa na cidade”.

O urbanista destaca a necessidade de que o poder público realize investimentos, de modo a tornar o transporte público tão eficiente quanto o automóvel privado. “O ônibus transporta uma média muito maior de passageiros pelo espaço ocupado do que um automóvel. Isso faz com que o automóvel seja inviável para a cidade. Além disso, para proporcionar mais espaço para o automóvel, seria preciso abrir avenidas em áreas que devem ser preservadas. Tudo isso se relaciona com a questão da sustentabilidade”, pondera.

Medidas paliativas

Segundo a assessoria da Companhia de Engenharia de Tráfego - CET, diversas ações têm sido colocadas em prática para minimizar o problema do trânsito e também suas consequências ambientais. Além da inspeção veicular que esse ano se tornou obrigatória todos os veiculos, o transporte coletivo também tem sido alvo de atenção especial.

Além da vistoria periódica à qual, desde janeiro de 2009, todos os coletivos são submetidos, os ônibus da frota municipal passaram a circular com o diesel S-50, que recebe uma parcela maior de biodiesel, resultando em uma redução expressiva na emissão de poluentes.

Tirar os carros da rua

Contudo, relatório divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente no mês de março mostra como o sistema de transporte público está distante das necessidades da população. Segundo o estudo, a frota de carros e motos é hoje responsável pela emissão de 40 vezes mais CO (monóxido do carbono) do que as frotas de ônibus urbanos.

Esse resultado é fruto da inoperância do transporte público no Brasil, conforme atestou o próprio o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), durante o lançamento do relatório. “Isso mostra realmente a falência do sistema público de transporte, o atraso do metrô, as deficiências do trem, questões que a gente tenta enfrentar agora em algumas cidades”.

Em busca do tempo perdido, a Prefeitura de São Paulo vem implementando algumas medidas paliativas como a criação da Zona de Máxima Restrição à Circulação de Caminhões (ZMRC) em 2008; a regulamentação da circulação de fretados (ZMRF entrou em vigor em 2009); e mais recentemente (em janeiro deste ano) o anúncio da criação de uma faixa exclusiva para circulação de motos no corredor da Rua Vergueiro e Avenida Liberdade. Todos nós sabemos que isso é pouco.

Acessibilidade e permeabilidade de calçadas

Para os pedestres e pessoas com mobilidade reduzida, uma novidade que promete é o decreto (49.544/09), promulgado em novembro de 2009, que pretende estabelecer uma padronização e a reforma de aproximadamente 600km de calçadas de rotas estratégicas da capital paulista e a construção de 350km calçadas novas.

Tendo como ponto de partida o Plano Emergencial de Calçadas, de autoria da vereadora
paulistana Mara Gabrilli, do PSDB, o decreto atinge dois objetivos principais: prioriza a
acessibilidade e determina a utilização de materiais que aumentam a permeabilidade de
calçadas, praças e demais áreas impermeabilizadas com concreto ou asfalto.

A ocupação do espaço urbano

Para muitos especialistas, essa mudança de padrão na utilização de materiais (e de modo de vida) é uma etapa fundamental para que a cidade possa ter uma melhor qualidade de vida. “Precisamos reduzir o consumo, produzir menos lixo, utilizar menos o carro e pensar até sobre o espaço que cada um ocupa na cidade” avalia Bonduki. “São Paulo não tem mais como crescer nem na horizontal, onde já alcançou os limites das áreas de proteção ambiental, nem na vertical, uma vez que isso poder gerar vários problemas de ordem ambiental”.

Apontada como uma alternativa para viabilizar novos empreendimentos capazes de revitalizar áreas degradadas da cidade, como a região da Luz, a proposta de revisão do Plano Diretor, atualmente tramitando no legislativo, enfrenta oposição de diversos setores da sociedade. “Do jeito como foi elaborada, a revisão não vai alterar fundamentalmente nada. Como não foi construída de um modo participativo, ela não tem como gerar uma alteração substancial na cidade”, afirma o urbanista da FAU.

A cidade e os prédios sustentáveis

Os edifícios sustentáveis, também relacionados como possíveis alternativas para conferir uma nova cara à cidade, apesar de bem vindos, não representam uma mudança significativa para a qualidade de vida urbana no curto prazo. Segundo Cláudio bernardes, vice-presidente do Secovi - Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo, a cidade tem hoje necessidades muito mais prementes em termos de sustentabilidade.

“No meu ponto de vista, é muito mais eficiente traçar modelos de mobilidade na cidade do que fazer edifício verde. Três horas de congestionamento matam todos os edifícios verdes que possam existir na cidade”, ironiza o executivo.

Ao contrário do que afirma o arquiteto Nabil Bonduki, o vice-presitente do Secovi aponta a necessidade de que se comece urgentemente a pensar novos modelos de ocupação que favoreçam exatamente o adensamento das cidades. “É preciso tentar aproximar a casa do trabalho, mas como se faz isso? Na verdade, não existe uma solução única, existem diversos modelos, como por exemplo, voltar a formar polos de desenvolvimento
sustentável, criar núcleos urbanos onde as pessoas vivam e possam se divertir
sem ter a necessidade de sair para outros lugares da cidade no dia-a-dia”.

O lixo nosso de cada dia

Diariamente um exército de 20 mil pessoas percorre as ruas de São Paulo para realizar uma das atividades mais básicas para a manutenção do meio ambiente urbano: são os catadores de material reciclado.

Com uma organização ainda precária e sob condições de trabalho de alto risco e periculosidade, são eles que colocam o Brasil como um dos líderes mundiais na reciclagem de materiais como latinhas de alumínio, papelão e plásticos tipo PET. Contudo, segundo dados do CEMPRE – Compromisso Empresarial pela Reciclagem – apenas 13% de todo lixo urbano é reciclado no país.

Em São Paulo a situação é ainda mais dramática, uma vez que somente 7% de todo lixo urbano é reciclado e a cidade conta apenas com 17 centrais de triagem onde trabalham 964 catadores.

Uma categoria em formação

Segundo Davi Amorim, do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Reciclados, existem ainda na cidade cerca de 94 grupos de catadores organizados. Desses, apenas 16 mantêm um convênio com a prefeitura e podem contar com alguma infraestrutura para trabalhar. Os demais grupos atuam de maneira autônoma, sem a mesma estrutura para realizar o trabalho (como caminhão, galpão, prensa, balança, equipamentos de segurança, entre outros).


“A renda é muito baixa, o que exige grande esforço para sustentar uma família. Um quilo
de papelão, por exemplo, hoje é vendido a cerca de R$ 0,18. O jornal e o vidro custam cerca de R$0,01 quilo. A latinha de alumínio, cerca de R$1,80. Plástico mole, R$ 0,04 centavos”, explica Amorim.

Sem cidadania não existe sustentabilidade

Contudo, o segmento de reciclagem não para de crescer e já se mostra como uma alternativa econômica bastante promissora, movimentando hoje no país cerca de 12 bilhões de reais ao ano e pode crescer muito mais se alguns problemas, como a adequada remuneração, capacitação e condições de trabalho dos catadores, forem solucionados.

Não é possível que uma metrópole como São Paulo ouse pensar em estabelecer ações sustentáveis, sem oferecer uma contrapartida minimamente digna para aqueles que fazem girar a “indústria da reciclagem”.

Cidades como Belo horizonte, Diadema, Assis, Araraquara, Orlândia, São José do Rio
Preto, Arujá, Biritiiba Mirim, entre outras, já contratam e remuneram seus catadores por
tonelada de material que recuperam para a reciclagem. É preciso seguir esses exemplos.

Evolução dos municípios que desenvolvem coleta seletiva


Você sabia?

* A cada tonelada de alumínio reciclado, cinco toneladas de bauxita deixarão de ser extraídas da natureza. Além disso, na produção de uma lata com material reciclado se economiza 95% da energia elétrica que seria necessária para a fabricação de uma lata com material não reciclado.

*A reciclagem de uma tonelada de PET economiza 130 Kg de petróleo. As garrafas de PET usadas são reaproveitáveis especialmente como matéria-prima da indústria têxtil - cinco garrafas de PET de dois litros são suficientes para fabricar uma camiseta tamanho extra-grande ou 33 cm2 de carpete

Veja onde levar seus recicláveis

Postos dos Bombeiros
Butantã - Rua Azem Abdalla Azem, 800
Cambuci - Rua José Bento, 15
Casa Verde - Av. Ordem e Progresso, 1020
Consolação - Rua da Consolação, 1663
Horto Florestal - Av. Santa Inês, 3200
Ipiranga - Av. Nazaré, 301
Mooca - Rua Dr. João Inácio Teixeira, 91
Santana - Av. Brás Leme, 3351
Sé - Praça Clóvis Beviláqua, 421
Tatuapé - Rua Apucarana, 131

Óleo de cozinha
Sindipan

Para pedir containeres

Central de Atendimento 156 ou pelo e-mail
limpurbses@sac.prodam.sp.gov.br

Coleta porta a porta
Central de atendimento 156 ou pelo e-mail
limpurbses@sac.prodam.sp.gov.br

IR PARA O SUMÁRIO DESTA EDIÇÃO

PÁGINA INICIAL