Falar sozinho pode parecer loucura, mas duvido que exista
alguém que não o faça. E se você não faz, certamente o fará.
A ARTE E O MISTÉRIO DE FALAR SOZINHO
Por Ivan Fornerón

Mesmo não sendo algo que me assuste
ou cause repulsa, ouvir — e
ver — alguém falando sozinho continua
chamando a minha atenção com o mesmo
interesse de quando eu era menino; a
diferença, talvez, de quando eu era garoto
para os dias de hoje, é que o medo que a
situação me causava foi se transformando
em compreensão e curiosidade. Compreensão
no sentido de solidariedade,
porque quando você se dá conta de que
às vezes faz coisas semelhantes, é natural
ficar compreensivo.
Muitas coisas a gente faz sem se questionar
direito por que é que fazemos. Falar
sozinho é uma delas. E sem querer entrar
na profundidade dessas razões, antes de
tudo me questiono se isso — o falar sozinho
— é algo normal ou algum indício
de que alguma coisa não vai bem?
É claro que aqui não me refiro aos que
nitidamente são perturbados mentais,
como alguns mendigos, por exemplo, que
por conta de uma vida inteira à margem
da sociedade, acabam perdendo todo e
qualquer vínculo com ela, restando apenas
a sua loucura — excesso de solidão —
traduzida em gestos incompreensíveis e
em gritos que resumem todo o diálogo que
ainda conseguem estabelecer. Também
não me refiro às crianças, mestres nessa
arte, por razões óbvias, principalmente
quando estão brincando. Falo mesmo é de
nós, adultos, pessoas aparentemente normais
e que, sem mais nem menos, se deparam
consigo mesmas falando sozinhas.
Pra todo mundo, tanto pra quem tem
esse hábito como pra quem não tem, falar
sozinho ainda é visto como algo negativo
Normalmente temos muita desconfiança
de quem age assim, e mesmo os que
exercitam esse ‘falatório solitário’ têm
uma visão negativa a respeito, tanto que
quando são surpreendidos falando sozinho,
sempre respondem se desculpando:
“Tava pensando numas coisas minhas” ou
“Tava pensando alto”, ou ainda “Tava cantando”,
tudo pra não admitir que estava
falando sozinho, o que prova que é algo
que não é bem visto por ninguém. Falar
sozinho pode parecer loucura, mas duvido
que exista alguém que não o faça. E
se você não faz, certamente o fará. É coisa
que não tem idade, embora seja mais frequente
aos mais velhos.
De todo modo, e antes de afirmar
qualquer coisa, deixo apenas algumas
perguntas para uma reflexão, caso haja
interesse ou mesmo alguma curiosidade
sobre o assunto. Ao que parece, imagino
que antes de significar qualquer tipo
de debilidade mental, é, acima de
tudo, o exercício de uma sensação
que transborda.
Falar sozinho é o mesmo
que pensar alto? É um tipo
de lamento, de lamúria?
Falar sozinho é falar
com alguém que
imaginamos ou é falar
consigo mesmo? Será
uma tomada abrupta
de consciência?
Pessoalmente, gosto dos versos
de um poeta espanhol, Antonio
Machado, que num de seus poemas
diz: Quien habla a solas espera hablar a
Dios un día (quem fala sozinho espera
falar com Deus um dia).
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