FORAM-SE OS CÃES, FICARAM OS PORCOS
Desenvolvimento é uma palavra qualquer e serve apenas para mascarar nosso retrocesso em termos de cidadania.
Por Ivan Fornerón


Os cães praticamente sumiram das ruas de São Paulo, pelo menos em regiões centrais (São Paulo tem uma meia dúzia de centros) já não vemos mais o melhor amigo do homem.
Nas ruas, só ficou o pior do homem: seus dejetos. Faz tempo que as ruas e esquinas são a lata de lixo preferida dos paulistanos, e é um amor tão grande que temos por essa interminável lata de lixo que não passamos um dia sem jogar alguma coisinha nela. Por isso eu ia me referir aos porcos, conforme intitulei acima, mas seria uma agressão aos suínos.
Nós somos irresponsáveis mesmo, atributo que os animais não têm. O poder público, também constituído por homens, contribui bastante, eu diria mesmo que ‘estimula enormemente’ a nossa disposição para transformar o que é público em lixo, sem deixar de cobrar, é claro. Ao lixo habitual, soma-se a porcaria, principalmente à noite, quando a cidade, além de lata de lixo, transforma-se em banheiro. Os incontinentes já não primam pela educação, e a Prefeitura não dispõe de nenhum banheiro público, aí já viu! Outro dado é que, apesar de boas campanhas nesse sentido, elas não são abrangentes e muito menos constantes.
Uma sociedade em desenvolvimento como a nossa onde o consumo e a individualidade vêm antes da instrução e da formação da consciência coletiva, o desenvolvimento é uma palavra qualquer e serve apenas para mascarar nosso retrocesso em termos de cidadania. Há sempre um temor em cobrar o que é de direito do poder público, e não é sem razão: a chance de se transformar num novo imposto não é pequena, e no Brasil é muito difícil emplacar uma idéia que não venha acompanhada por um imposto.
Então, deixemos os banheiros públicos e outros tantos serviços (que não existem), e voltemos aos cães.
Em 16 de abril de 2008, foi sancionada pelo governador José Serra a Lei 12.916/08, de autoria do deputado Feliciano Filho, do Partido Verde. A lei proíbe a matança indiscriminada de cães e gatos em todos os Centros de Controle de Zoonoses, Canis Municipais e Congêneres do estado de São Paulo. Além disso, uma boa campanha de adoção tem reduzido o extermínio desses animais, muitos deles abandonados pelos seus donos, criaturas que, esperamos, tenham o mesmo destino.
Cito a lei para apontar a eficácia na captura dos animais de rua, e torço pra que o nosso tão propalado desenvolvimento econômico seja acompanhado de eficiência semelhante no combate à falta de educação que emporcalha a cidade. E, se não fosse pedir muito — ó céus! — a mesma eficiência para capturar e enjaular políticos corruptos! Au, au!

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