O TELEFONE DA VIDA ALHEIA
Por Ivan Fornerón


Ficou mais fácil saber da vida alheia sem ter que invadir a privacidade de ninguém. Ao contrário, é a privacidade que vem descaradamente até você. Não são apenas histórias triviais, mas também informações sigilosas: números de contas bancárias, pequenas mentiras, simples declarações de afeto e até comentários, digamos, mais íntimos. É assim mesmo, de tudo você ouve nas conversas ao celular.
É a vida escancarada como você sempre quis. Quis? E tem vida pra todo tipo de
plano, do pré-pago ao pós-pago, minutos incansáveis dos indivíduos cada vez mais sozinhos e que há muito tempo já perderam a referência entre público e privado. Alguns exemplos bem simples, entre tantos, retratam muito bem a coisa toda.
Agência do Banco do Brasil, tarde de novembro, fico sabendo que o senhor
gordo à minha direita é casado, tem dois filhos, o nome de cada um deles e também o valor das mensalidades escolares.
Na mesma agência, a caixa atende o celular e fala da roupa que usará naquela
noite. No Largo do Cambuci o officeboy diz que ainda está na Paulista e que o
trânsito está péssimo.
Tomo o ônibus e uma falante moça de tranças deixa metade dos passageiros sabendo que ela não suporta uma tal de Dafne, queixa que ela faz a uma outra moça, do outro lado da linha e que se chama Aline; desce dois pontos depois
dizendo: “O Marcos pegou ela...” Vai lá saber, não é? Uma conversa interrompida, nesses casos, é um presente do silêncio.
Terrível mesmo é quando os falantes de celular não enxergam ninguém à sua volta. Num consultório dentário uma jovem senhora de não mais de 40 anos, ensinava, pra lá de irritada, os procedimentos e os ingredientes de um risoto a alguém chamada Leci. Pelo tom de desdém e impaciência com que falava é possível que se tratasse da sua empregada a quem certamente não tem muita estima.
Há os que passam endereços de e-mail como se apresentassem o telejornal:
um anúncio não seria mais eficaz. A altura da voz, a concorrência com os demais barulhos da cidade faz com que as conversas das pessoas ao celular se transformem em manchetes.
Por fim, à noite, no elétrico de volta pra casa (isso tudo num mesmo dia) um rapaz se queixava do patrão e da empresa onde trabalha. Metade do que dizia
eram gírias, e a outra metade, palavrões. Nada, absolutamente nada contra os palavrões e as gírias, mas que seria bom um blecaute de celulares, pelo menos por um dia, ah, isso seria!

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