AS RUAS CELEBRAM O DEUS TÍFON
Por Ivan Fornerón

Parece religião, mas não é. Ou melhor,
até que poderia ser, pois se desenvolvem
a partir de movimentos repetitivos
que formam o ritual de cada uma. Afinal,
depois da crença, uma religião nada
mais é do que o conjunto de seus rituais.
Mas não é de nenhuma religião específica
que falo, estou me referindo às nossas
atividades cotidianas, principalmente
as que são feitas nas ruas e que têm dois
elementos em comum: o fogo (ou a combustão)
e a fumaça.
Fumaça, mau-humor, impostos, mecânico
e congestionamento é do que mais
entendem os carros. Essa necessária, mas
detestável criatura produz a maior fonte
de estresse da cidade: o trânsito; e como
se isso não bastasse, é responsável pela
mais nociva poluição da cidade. Mas as
ruas têm ainda outros fumacês, alguns até
simpáticos. Por exemplo, os pirotécnicos,
esses que manipulam o fogo em pequenas
tochas, ainda são comuns em semáforos
de grandes cruzamentos. É bonito
ver os desenhos que o fogo faz, como se
dançasse pelas mãos do seu domador, e
você quase não percebe a fumaça preta
que exala das pontas das tochas.
Fumaça defumadora, e às vezes pra lá de
desagradável, é a que domina milhares de
botecos, centenas de restaurantes caseiros
e dezenas de ruas. O chamado ‘churrasquinho
de gato’ só não é o rei do pedaço
porque a cerveja e o celular são campeões
de popularidade, sendo que esse último
até as crianças possuem. Há muito tempo
que nossas ruas já não são públicas: cada
um vai loteando o pedacinho em frente à
sua casa (e às vezes a do vizinho também),
e aí faz o que bem entender: é exemplar
a nossa democracia. Tão exemplar que
nos últimos tempos trouxe mais fumaça
às ruas: os fumantes que saem dos bares,
escritórios onde trabalham e de tantos
outros lugares, alguns até da própria casa,
enfim, saem todos pra fumar na calçada.
E você vai andando e percebe pequenos
grupos de amigos recentes, irmanados no
tabaco, e aquela torcida uniformizada da
fumaça incorporando-se às tantas outras
fumaças da cidade. Acho que Gotham
City, a cidade do Batman, teria inveja.
Otto Lara Resende dizia que “o mineiro
só é solidário no câncer”, mas aqui, em
São Paulo, nós somos é solidários na fumaça,
mesmo.
No fundo, imagino que tudo isso seja
mais um movimento religioso que tem
no deus Tífon (ou Tifão) sua divindade
maior. Deus da fumaça, da seca, da poluição
e dos vulcões, ele tem motivos de
sobra para amar nossa cidade tifônica,
digo, titânica.
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