Para ficar apenas no caso dos nomes próprios, é intrigante a escolha dos nomes que atualmente os pais dão para os seus filhos.
A ESCOLHA DE UM NOME


São muitas as intenções, conscientes ou não, ao escolhermos um nome.
Tem gente que leva dias e dias, e até meses para se decidir sobre a definitiva
‘palavra’ que, por gosto, homenagem ou entendimento, dará forma às suas expectativas. E isso é assim não apenas com os nomes que escolhemos para os filhos, os netos, sobrinhos, mas também com cachorros, gatos e todos os animais de estimação. Isso sem falar na infinidade de apelidos, alguns carinhosos, outros nem tanto, que damos aos mais íntimos e, também, aos que se tornam o alvo da nossa zombaria. Tradição que remonta ao início dos tempos, o ato de nomear é muito mais do que instinto, hábito ou mania: é uma necessidade que está ligada diretamente à nossa capacidade de entendimento. Numa palavra: nós temos medo e é perturbadora a sensação que temos diante daquilo que não tem um nome, daí a eficácia da psicologia e da psicanálise que nos tranqüilizam e nos acalmam ao dar nomes às nossas confusões e dúvidas a perder de vista. Para ficar apenas no caso dos nomes próprios (o que daria tranquilamente assunto para centenas de crônicas), é intrigante a escolha dos nomes que atualmente dão os pais para os seus filhos. É, no mínimo, um convite à reflexão que, se não explica, pelo menos revela, além da criatividade desses pais, suas intenções e desejos ocultos.
Dia desses, perto da praça onde moro, no ponto de ônibus, escuto uma
jovem mãe chamar pelos filhos, dizendo que estavam atrasados.
Eu também estava, mas tive que conter meu passo ao escutar os nomes pelos quais a mãe chamava seus filhos: Raissa e Aladim. Tudo bem, Raissa não é nenhuma novidade e é um bonito nome. Aladim também não é um nome feio, mas por conhecer apenas um (que aliás é personagem de ficção) não pude conter minha curiosidade e tive que olhar para o garoto que levava o nome de um dos mais famosos heróis da literatura, e ver como era esse Aladim que, em plena terça-feira de sol a pino, sem tapete e sem lâmpada mágica, percorria o mesmo metro quadrado da praça onde cruzo todos os dias. Esse pequeno Aladim tinha por volta de seus 7 ou 8 anos, cabelo encaracolado,
moreno, olhos grandes, muito bonito, mas cara de bravo. Pelo uniforme
(que não pude identificar) deduzi que estava indo à escola. Eu ria para mim mesmo e, parado no ponto de ônibus, fiquei olhando as duas crianças que iam atrás da mãe apressada. Naquele momento, não pensei em questões óbvias ou questões sociais dos nomes e das conseqüências, sequer escrever esta crônica eu pensei. Tive apenas uns relâmpagos da minha infância, e torci para que o pequeno Aladim tivesse tantas aventuras como o seu homônimo da ficção.

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