Os mananciais pedem socorro
Com uma baixíssima disponibilidade hídrica, equivalente à do semi-árido nordestino, a Região Metropolitana de São Paulo enfrenta enormes desafios para garantir água potável para os seus quase 20 milhões de habitantes.

Além de ter sido uma região que pouco preservou sua vegetação nativa, a
megalópole paulistana foi construída sobre as cabeceiras do rio Tietê, em uma região de planalto, onde o fluxo de água do rio é muito reduzido, se comparado com o momento em que deságua no rio Paraná.
Some-se a isso uma história de poluição e destruição de seus principais mananciais, entre os quais podemos destacar o Pinheiros, o Ipiranga, o Anhangabaú e o Tamanduateí, e teremos os ingredientes para a instalação de
uma monumental contradição: uma das maiores concentrações urbanas do planeta, com uma disponibilidade hídrica reduzidíssima.

De onde vem a água?
Segundo a Sabesp - Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, para atender toda essa população, a empresa conta hoje com oito sistemas geradores de água, que produzem aproximadamente 68 mil litros de água por
segundo (ou 5,8 bilhões de litros de água por dia), uma quantidade suficiente para encher 2.250 piscinas olímpicas.
Para alcançar esse volume, a Região Metropolitana de São Paulo - RMSP é obrigada a importar mais da metade da água que consome das Bacias dos Rio Piracicaba e Juqueri, através do Sistema Cantareira, que está localizado a mais de 70 Km do centro de São Paulo.
O restante da água é produzido pelos mananciais que estáo inseridos na região, em especial Billings, Guarapiranga e cabeceiras do Rio Tietê – e que há muito tempo vem sofrendo um intenso processo de ocupação e degradação.

Um problema que não para de crescer
Apesar de contar com uma situação confortável no que se refere à disponibilidade hídrica, com um volume aproximado de 35 mil m³/ hab/ano, segundo o pesquisador do Instituto Sócio-Ambiental, Marcelo Cardoso, o Brasil
apresenta uma grande desigualdade na distribuição dessa água que, aliada ao mau uso e a crescente degradação ambiental, tornam o problema cada dia mais agudo, principalmente em regiões metropolitanas como São Paulo.
“No Estado de São Paulo existe uma disponibilidade perto do que é recomendado pela ONU - Organização das Nações Unidas - como ideal, que é algo em torno de 2.460 m³ de água/ano por habitante. Contudo, na RMSP, a situação é extremamente crítica, com uma disponibilidade de água inferior àquela existente, por exemplo, no Estado do Ceará: 201m³/hab/ano”, enfatiza Cardoso.

Alternativas e soluções
Para o Coordenador do Projeto Mananciais, da Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Ricardo Araújo, o que existe é uma situação de sintonia fina entre o que a Sabesp tem de água para oferecer e a demanda da população. “Não há folga no sistema e isso tem sido administrado dessa forma deliberadamente, porque investir em água que constitua uma reserva para
situações de emergência, significaria fazer investimentos em sistemas que seriam utilizados apenas ocasionalmente, mas que teriam impacto nas tarifas de manutenção”.
No entanto a população continua a crescer. O próprio plano diretor de abastecimento de água da Sabesp para a Grande São Paulo trabalha com a estimativa de que a região irá alcançar uma população em torno de 22,5 milhões de habitantes entre os anos de 2020/2025.Mesmo com estudos demográficos indicando uma tendência de redução nesses números, a situação é bastante preocupante.
Para fazer frente a essa demanda, diferentes alternativas são apontadas pelos especialistas. Enquanto a Sabesp trabalha na viabilização de novos sistemas, como o Alto Tietê, que, segundo a empresa, estará pronto em 2010; o São Lourencinho, localizado na Bacia do Ribeira, e o Rio Pequeno, que é um
braço da Billings, ambientalistas destacam o enorme desperdício existente hoje na água oferecida à população e a importância de uma melhor gestão da estrutura atual como alternativa para aumentar a disponibilidade de água na região. “As obras é que são priorizadas e não o planejamento. Por exemplo, quanto custaria investir para diminuir a atual perda da Sabesp de 40% para 30% de toda água captada? Com certeza já seria um número significativo para nós que temos uma escassez tão grande”, destaca Cardoso, do Instituto Sócio-Ambiental. Ricardo Araujo, da Secretaria de Saneamento e Energia, rebate essas afirmações e destaca que esse trabalho já tem sido levado à cabo pela Sabesp. “A empresa fechou o ano de 2008 com uma perda de 27,7%. Essa redução nas perdas, que anos atrás chegou a 34%, é uma das explicações, para que o crescimento da demanda por água na região não esteja tão elevado como o projetado”.

A qualidade da água
Responsáveis pelo abastecimento de uma parcela significativa da RMSP, as represas de Guarapiranga e Billings, ao contrário do sistema Cantareira e do sistema Alto Tietê, ou ainda outros sistemas mais protegidos, como o
Alto Cotia e Rio Claro, são totalmente urbanas e, além do problema da escassez, colocam em pauta o problema da qualidade da água.
Essa condição urbana das represas aumenta de forma significativa o custo para que se possa servir uma água de qualidade para a população.
Isso porque, inevitavelmente, os mananciais são fortemente impactados pela ocupação desordenada existente no seu entorno.
Nos últimos anos tem havido uma mobilização dos governos para realizar alguns investimentos, como a operação Defesa das Águas, por exemplo, onde prefeitura e Estado se organizaram e têm atuado na fiscalização e na implementação de ações para mitigar o tamanho do problema.
No bojo dessas ações, o governador José Serra realizou no mês de maio a entrega de 31 veículos de patrulha rural, oito motos de 660cc, uma embarcação de 25 pés e duas lanchas de 17 pés, além de carretas para transportar motos e barcos, 20 câmeras fotográficas digitais e 20 aparelhos de GPS. Os equipamentos serão destinados à Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo e Polícia Militar Ambiental e fazem parte das compensações
ambientais previstas nas obras de implantação do trecho sul do Rodoanel. Foram investidos pelo governo estadual R$ 5,5 milhões.
Na cerimônia de entrega o Governador destacou a importância de intensificar o trabalho de preservação dessas áreas. “A defesa do meio ambiente é cada vez mais necessária e não pode ser feita sem uma parceria estreita entre o Governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo. Estamos trabalhando para garantir a água para as futuras gerações”, enfatizou.
Desde 2005, a Prefeitura investiu R$ 180 milhões em urbanizações de áreas de mananciais, que beneficiaram diretamente 10 mil famílias. Em 2008, foram contratadas pela Prefeitura obras em 81 áreas de mananciais, que irão beneficiar 60 mil famílias, com investimentos de R$ 850 milhões.

O Rodoanel e seus impactos nos mananciais
Colocado pelas autoridades como um projeto imprescindível, sob o ponto de vista de garantir o desenvolvimento e a mobilidade urbana de São Paulo, o Rodoanel Mário Covas é apontado pelos ambientalistas como uma grave ameaça no que diz respeito aos mananciais da Região Metropolitana.
“Quando pensamos no Rodoanel, não dizemos se ele é bom ou ruim, o que é questionado é a sua viabilidade. Viabilidade do ponto de vista ambiental, econômico e social. Basta passar pelo trecho oeste e verificar o que o rodoanel
já fez com toda aquela região, hoje tomada por ocupações irregulares”, enfatiza Cardoso. Opinião diametralmente oposta é apresentada pelo urbanista Ricardo Araújo. “Os impactos estão muito localizados e os benefícios serão muito grandes. Por outro lado, isso faz parte da visão realista da metrópole. Não existe
uma metrópole como essa sem impactos. O que é preciso é administrar isso de maneira razoável e não admitir impactos desnecessários”, pondera.

Uma estrutura de saneamento centralizada
Fundamental para garantir adequadas condições de saúde e um meio ambiente sustentável, o saneamento básico no Brasil deixa muito a desejar. Mais da metade da população não conta com redes para coleta de esgoto e 80% dos resíduos são lançados diretamente nos rios e córregos, sem qualquer
tipo de tratamento.
Na região Metropolitana de São Paulo, a situação também está muito longe do ideal e a estrutura de tratamento instalada é bastante complicada, herança de um tempo onde a tecnologia mais utilizada exigia grandes espaçospara realizar o tratamento.
Disso resultou a instalação de cinco grandes estações em uma região muito extensa e densamente povoada, fazendo com que o esgoto tenha que percorrer longas distâncias para ser tratado.
No caso de Guarapiranga o esgoto é coletado e transportado para a Estação de Barueri. O esgoto de Parelheiros também é coletado e transportado até Barueri, percorrendo uma distância de mais de 70 km. Além dos altos custos resultantes desse tipo de operação, uma parcela muito significativa do esgoto doméstico continua sendo despejada diretamente nos rios e córregos de toda região.

Águas pluviais e sistema de esgotos
No Brasil, como em todo sistema moderno do mundo inteiro, existe a estrutura para captação de águas pluviais e o sistema de esgotos. O sistema de água pluvial é a boca de lobo da Prefeitura, que coleta a água da chuva. E o sistema de esgoto é da Sabesp e teoricamente coleta o esgoto e o leva para as
estações de tratamento.
Segundo Araújo, da Secretaria de Saneamento, na prática a coisa não funciona de forma tão separada assim. “Existem muitas residências em que o ralo que coleta a água da chuva deságua no esgoto. E isso gera um problema, porque o sistema de esgoto não é dimensionado para receber água de chuva. E existem
outras situações onde o esgoto é depositado na rede pluvial. A multiplicação de casos como esses, faz com que os córregos continuem poluídos mesmo nos locais onde existe coleta de esgoto. E isso é uma realidade na cidade inteira”,
lamenta.

Aprenda você também a cuidar da água
Para superar todas essas dificuldades e garantir uma água de melhor qualidade é necessário que a população compreenda que a água, assim como a cidade, é um bem comum, pertence a todos e é responsabilidade
de todos. Participe, aprenda a cuidar do que é seu. Fiscalize as ações e obras propostas pelos governos e não jogue lixo na rua. Seus filhos e netos
agradecem.

Faça sua parte: Economize água
• Fique atento aos vazamentos e mantenha a descarga do banheiro regulada.
• Mantenha a torneira fechada durante as tarefas cotidianas,
• Reutilize a água de forma inteligente.
• Utilize a máquina de lavar roupa na sua capacidade máxima para economizar água.
• Ao detectar um vazamento de água na rua, ligue 195 e denuncie.
• Um banho de 15 min com o registro meio aberto, gasta 144 litros de água. Com o fechamento do registro o consumo pode cair para 48 litros
• Pratique coleta seletiva.
• Não jogue lixo na rua

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