Luis não tinha mais dúvidas que a mulher tinha enlouquecido
QUESTÃO DE PLEITO


As discussões de Mariana e Luis acabavam sempre por se converter numa num litigioso tribunal esportivo toda vez em que assistiam juntos a uma partida de futebol. Primeiro as acusações, depois as alegações, e por fim, a torturante busca para provar “os fatos”. Fosse em casa, na residência dos amigos, ou mesmo no bar do Espanhol, a situação era sempre a mesma diante dos jogos: o que começava como um inofensivo tribunal de pequenas causas terminava num julgamento tenso com direito a júri e até arrolamento de testemunhas
(ambos intimados à revelia). E o que tornava a discussão insuportável era a ausência de um veredicto. O pênalti que ele via ela contestava com desdém dizendo que ele era exagerado e que aquilo tinha sido um roubo. A falta que ela
reclamava ele ria com desprezo argumentando que futebol é coisa de macho e que pra mulher qualquer empurrãozinho é falta. Os amigos, quando estavam
por perto, esquivavamse com respostas que beneficiavam os dois, e alguns até
já evitavam o convívio com o casal em dias de jogo. Mesmo o dono do bar viase
às voltas com uma crescente esquizofrenia. Ô Espanhol, o cara tava ou não tava impedido? Es posible. Mas é claro que não foi impedimento, não é Espanhol? Esposible. E o Espanhol pensavaconsigo: “Es posible?!” No cotidiano do lar nem um cachorro nem um filho para mediar o casal. Mariana, lindinha, eu conheço o ângulo preciso da imagem, sou fotógrafo, tenho olho clínico pra
coisa. Olho cínico, você quer dizer, né? Que dupla falta o quê, Mariana: isso não é tênis, não, minha filha! Eu me referia à segunda falta que o jogador cometeu: foi apenas um comentário. Pois então, lindinha, esse é o problema: um comentário seu pode ser aplicado a qualquer esporte, desde um simples cata-deixa-não-sequeixa até uma corrida de biga com tridente.
Luís, benzinho, vai fotografar as suas mulherzinhas e me deixa em paz, tá bom? Mariana, 32, jornalista. Luis, 37, fotógrafo. A discussão tinha a idade do casamento: oito anos. Um ou outro (casamento ou discussão de futebol) parecia não mais se sustentar. Uma mudança (num ou noutro) parecia iminente.
Nos dois anos que se seguiram, Mariana começou a chegar tarde em casa, todos os dias, com livros e cadernos que tratava de guardar rapidamente.
Entre uma discussão e outra já não se exaltava mais: com um apito ensurdecedor mostrava em riste o cartão ao marido, vermelho ou amarelo, conforme a regra, para total incredulidade de Luis, que não tinha dúvida que sua mulher havia enlouquecido. Até que numa noite de jogo, quando assistia em casa e sozinho à final do campeonato, ficou paralítico e gago por alguns
instantes ao ver sua mulher entrando em campo. E voltou a si em gritos alternados e repetitivos: Mariana? Mariana! Mariana? Mariana! Juíza, não,
Mariana! Mariana? Mariana! E com o olhar fulminante trazia uma única idéia, fixa e irrevogável: faria um curso para tornar-se bandeirinha.

 

IR PARA O SUMÁRIO DESTA EDIÇÃO

PÁGINA INICIAL