Mulheres:
A hora e a vez das donas da casa!

A partir da década de 70 até os dias de hoje, a participação das mulheres no
mundo do trabalho tem apresentado uma progressão que chega a ser espantosa. Se em 1970 apenas 18% das mulheres brasileiras estavam inseridas no mercado, chega-se a 2008, segundo dados da Fundação SEADE,
com 56,4% delas em atividade. Entretanto, mesmo com essa radical transformação no mercado de trabalho, as mulheres afirmam que ainda há muito a ser conquistado para que se possa estabelecer uma real condição de igualdade na sociedade.
Prova disso é a manutenção da inexplicável diferença existente na remuneração entre homens e mulheres. No Estado de São Paulo, o mais rico da Federação, enquanto uma mulher ocupada recebe, em média, o valor R$ 5,76 por
hora trabalhada, esse valor salta para R$ 7,53 para os homens. O trabalho de uma mulher vale apenas 76,4% do trabalho de um homem.

A responsabilidade feminina e a invisibilidade masculina
Para Maria Elisa Braga, assistente social, mestre em trabalho com mulheres em situação de violência e coordenadora da Casa Eliane de Grammont, que presta socorro a mulheres vítimas de violência, o mercado de trabalho é
apenas a ponta do iceberg.
“A menina mal nasce e já é caracterizada para os tradicionais papéis femininos: vai ser meiga, dócil, cuidadora. Ainda na primeira infância já ganha uma boneca maior do que ela. Esse o seu papel: ser uma mãe! Uma cuidadora da sociedade. Uma cuidadora das relações sociais. Uma cuidadora da reprodução humana. Para superar esse bombardeiro incessante, é muito importante que a mulher entenda que a maternidade não é destino e sim escolha”, reflete.
Essa permanente responsabilização pelo mundo familiar, que muitas vezes aparece disfarçada de atenção e reconhecimento do outro pela condição da mulher, é apontado pela feminista Maria Fernanda Loureiro, integrante da
SOF – Sempreviva Organização Feminina, como um ponto fundamental a ser desconstruído para que se possa estabelecer uma relação de maior igualdade social entre homens e mulheres.
“Claro que é prazeroso cuidar da vida humana, claro que dá muita satisfação cuidar dos filhos, mas não se pode tirar do foco que isso é um trabalho
que tem que ser dividido entre os homens e as mulheres. Existe uma santificação do papel da mãe, mas para os homens não existe uma contrapartida similar que diga: ser pai é maravilhoso. Porque ser pai e ser mãe dá muito trabalho. Envolve levar a criança ao médico, acompanhar o desenvolvimento físico/cognitivo, acompanhar a vida escolar, as relações sociais e muitas outras”, ressalta Loureiro.

A ausência de políticas públicas e o sentimento de culpa
Coordenadora do Instituto da Mulher Negra - Geledés, Eliane Custódio, salienta que o cotidiano da mulher, marcado pelas múltiplas jornadas de trabalho, termina por cobrar um preço muito alto por sua expansão social e inserção no mundo. “Mesmo depois que as mulheres começaram a ir para o mercado de trabalho para contribuir com a renda familiar, cumprindo a mesma carga
de trabalho que os homens, essas responsabilidades permaneceram sobre elas e geralmente são apontadas como culpadas quando algo não dá certo, quando o filho/a não vai bem na escola,quando tem a saúde fragilizada, quando
as relações familiares se esgarçam”. A inexistência de políticas públicas, que sejam capazes de atender a família com um mínimo de qualidade, é outro ponto que fragiliza fortemente a condição feminina. “Não existem políticas públicas que deem conta daquele trabalho que a mulher realizava dentro de casa.
Não temos creches suficientes e em qualidade, não temos um ensino fundamental onde a criança, por exemplo, fique plenamente atendida durante oito horas”, revolta-se Braga.

Sinais de mudança? Existem?
Ainda assim é possível verificar um processo de transformação e mudança nas relações de gênero. “Nos últimos 50 anos nós tivemos mais avanços na emancipação nas mulheres do que nos últimos 5 mil anos. O problema é que apesar da conquista dos direitos, apesar da conquista do controle do seu corpo, apesar das conquistas no mundo do trabalho, o sistema patriarcal permanece e a mulher continua com as mesmas incumbências “naturalizadas” socialmente”,
enfatiza Braga.
A existência de uma aparente mudança de atitude e maior visibilidade do problema nas classes mais abastadas, segundo Fernanda Loureiro, merece uma análise mais cuidadosa. “Geralmente o que acontece é uma transferência.
As mulheres com mais recursos financeiros delegam para outras mulheres essas tarefas domésticas. O problema vai sendo transferido: para a tia, a irmã, a empregada, a professora da escolhinha, a babá. São outras mulheres que
assumem esse papel”, afirma.

Desconstruir conceitos e educar
Apontada como ferramenta fundamental para construir uma nova relação de gênero entre homens e mulheres, a educação também deve ser encarada como um desafio. “Sempre ouvimos isso: se são as mulheres que educam, porque elas não educam diferente?
E então cabem algumas perguntas: Quantos signos e símbolos de poder a criança desde cedo vai se deparando? Quais os nomes dos principais aeroportos, das principais rodovias, principais escolas? Quem comanda o país? Quem tem poder e exerce esse poder?”, questiona Loureiro.
Posição bastante similar é apontada por Elaine Custódio, que, entretanto, ressalta alguns cuidados que podem ajudar a mudar essa história. “Educar para não discriminar é a primeira coisa. Não discriminar racialmente, não discriminar por orientação sexual, não discriminar por questões religiosas,
não discriminar por qualquer deficiencia, não discriminar por ser obeso/a ou ser magro/a, não discriminar por ser mulher. Se existe a desigualdade é porque alguém reforça isso cotidianamente”, finaliza.

 

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