Confraternização de fim de ano, panetone e ‘MY WaY’
— Mas eu não sou cantor, sou o maître!


Tropeçou numas quatro ou cinco cadeiras, deu uma meia dúzia de encontrões, e depois de um sem-número de ‘desculpe’ que ia distribuindo de um extremo a outro da churrascaria, alcançou o garçom e pediu em tom de súplica:
— Toca ‘My way’?
O garçom ficou parado e sem saber se havia entendido a pergunta.
Apenas em silêncio observava aquela estranha figura que fazia um enorme esforço pra ficar em pé. Depois de instantes, perguntou:
— Como é que é?
— Falei pra você tocar ‘My Way’ — e cantarolou — lááá-lá, lá-lá-lá-lá...
— O senhor vai me desculpar, mas aqui não temos música ao vivo e nem karaokê — respondeu o garçom, interrompendo a cantoria do cambaleante.
— Mas eu não quero cantar, eu quero que você cante!
— Mas eu não sou cantor, sou o maître!
— É o quê?
— O chefe do garçons, digamos.
— Ah...! Mas tá vestido como cantor, né? Você até tá parecido com o Frank! Toca ‘My Way’, vai? Te dou um troco: quanto cê quer pra tocar ‘My Way’?
O maître percebeu que não adiantava nada discutir e até foi simpático: deu um sorriso, virou as costas e tratou de despistar o freguês que tentou segui-lo. Mas só tentou, estava bêbado demais. Cambaleante sempre, acabou por voltar à sua mesa, onde a rapaziada do trabalho, também cambaleante, celebrava o que ninguém mais sabia o que era. Dureza mesmo foi fazer o percurso de volta, atravessar o salão inteiro da churrascaria, do fim da ala de não-fumantes até o fim da ala de fumantes: outros cinco ou seis tropeções, ziguezagues a perder de vista e uma ladainha de pedido de desculpas, e tudo com trilha sonora,
já que cantarolava sem parar a bendita ‘My Way’.
Mal sentou à mesa, virou mais um conhaque, sem dó; fez cara de inconformado e nem deu atenção aos amigos da mesa. Pegou uma sacola com uns embrulhos vermelhos e dourados e saiu mais uma vez no encalço do maître.
E aquela via-sacra toda de novo, insuportável dos tropeções e encontrões cruzando o salão da churrascaria, e agora, além da cantarolar, ia dando sacoladas nos ombros e nas nucas de todos os que estavam sentados. Avistou o maître. Chegando bem pertinho dele, deu-lhe dois toques nas costas. O maître virou, surpreso e de sobrancelha arqueada, pra ouvir o ultimato: “20 conto, o champanhe e o panetone que eu ganhei da firma! Num vô oferecer de novo: vai cantar ‘My Way’ ou num vai?”

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