É MUITA PRESSA!
A pressa mata o óbvio e impede as reflexões mais simples

Luis Antonio saiu de casa ajeitando a roupa no meio do caminho enquanto
engolia um último naco de pão do seu café da manhã de três minutos.
É impensável na vida desse homem de 35 anos fazer pelo menos duas coisas
ao mesmo tempo. Um detalhe seria suficiente para revelar a sua personalidade:
ele confere as horas em seu relógio duas vezes por minuto. Nunca se atrasa e está sempre à frente da pontualidade: para ele, ser pontual já é uma quase lerdeza.
Luis Antonio tem muita pressa, por isso não tem muito tempo pra pensar, e acaba sendo vítima do eterno dilema entre assobiar e chupar cana, mergulhado em cinco ou seis compromissos num espaço de tempo onde caberiam, no máximo, dois. Nesse mesmo dia, somente pela manhã, tinha uns quatro compromissos, e mal se dirige ao primeiro já pensa no segundo, assim sucessivamente, até o quarto, como que se o acelerar do pensamento encurtasse as horas. “Se eu me apressar um pouco mais...”, pensava, sem nunca concluir o pensamento, afinal, não havia tempo pra isso. Entra esbaforido no metrô, e sua pressa torna tudo mais dramático do que já é: participa do empurra-empurra, faz cara de mal-humorado, respira com impaciência e, enquanto a porta do vagão não abre, fala pra si mesmo: “Metrô? Metrô já era! Tá cada dia mais devagar! Essa cidade já devia ter trem-bala faz tempo!”
Essa agitação é a sua marca, e com ela resolveu todos os apontamentos do dia: ida ao escritório, visita a clientes, almoço, telefonemas etc., numa satisfação de dia produtivo e ágil bem a seu gosto. E foi com essa mesma pressa que foi parar, no fim da tarde, por volta das 18h00, na ante-sala de um consultório cheio de mulheres de barrigas proeminentes. Diante da recepcionista, foi logo falando: “Eu tenho uma consulta marcada para as 18h00, e tenho pressa.” Ao
que a recepcionista perguntou: “E o nome da sua esposa qual é?” Luis Antonio contesta: “O que minha esposa tem a ver com isso se a consulta é minha?” A recepcionista não se contém: “E desde quando o senhor se consulta com um ginecologista?” Até agora Luis Antonio não se deu conta de que na pressa ao anotar o recado da secretária do obstetra, nem pensou em transmiti-lo à esposa, convencido de que agendava mais um compromisso seu.
Moral da história: a pressa deixa um homem grávido. Grávido de vazio.
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