A Cidade Inacessível
Por Waldir Martins

Antes de rampas, acessos ou mudanças arquitetônicas, o que a pessoa portadora de deficiência necessita em primeiro lugar é que sua cidadania seja respeitada



Quem nunca se deparou com a situação em que pessoas sem deficiência
ocupam vagas de estacionamento reservadas para pessoas com deficiência?
O exemplo, que pode parecer banal, mostra com clareza o quanto a metrópole e os cidadãos ainda são inacessíveis em relação aos problemas enfrentados
pelas pessoas portadoras de deficiência.

Um mundo a ser construído
Os números são eloqüentes. O censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2000 indica que no país existem 24,5 milhões de pessoas (14,5% da população) que declararam ser portadoras de alguma deficiência.
Na cidade de São Paulo, dados da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED) estimam que 10,32% da população (aproximadamente 1,5 milhão de pessoas) apresentam algum tipo de deficiência.

Não faltam leis, falta atitude
Em dezembro próximo termina o prazo estabelecido pelo decreto no. 5.296 de 02/12/2004 para as empresas e o comércio se adaptarem e permitirem a acessibilidade de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.
Restaurantes, bancos, hotéis, lojas, supermercados, teatros, shoppings e cinemas são alguns dos empreendimentos que devem se adequar. E a cidade não está pronta. Uma lutadora otimista, a vereadora Mara Gabrilli, que também é uma pessoa com deficiência grave, acredita que as coisas começam a melhorar na cidade. “A própria criação da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED), da qual participamos, tem feito toda diferença no tratamento da questão. E muitas mudanças estão acontecendo nas calçadas, nas edificações, nos lugares por onde passamos: São Paulo está se adaptando para os habitantes que têm deficiência ou mobilidade reduzida”, enfatiza a vereadora.
Mas ainda existem muitos obstáculos a serem superados. De acordo com a SMPED, a frota de ônibus da cidade de São Paulo é de 15 mil veículos, destes, cerca de 18%, ou seja, perto de 2.700, são adaptados para pessoas com deficiência, quantidade que se mostra muito aquém das necessidades da cidade. E mesmo o serviço de transporte “Atende”, destinado a pessoas com alto grau de comprometimento da mobilidade, é limitado, uma vez que possui apenas 278 veículos para atender toda população.

Tornar a cidade e os cidadãos acessíveis
Para o vice-presidente da AVAPE (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais), instituição que realiza trabalhos com pessoas portadoras de todos os tipos de deficiências, o grande entrave para minimizar o problema é de consciência. “São as pessoas que precisam estar acessíveis e sensibilizadas para as dificuldades que uma pessoa com deficiência enfrenta em uma cidade como São Paulo. Da mobilidade ao acesso à informação. Seria importante
realizar uma campanha nacional de sensibilização e mobilização”, avalia o executivo. Referência na produção de títulos em braile, a Fundação Dorina Nowill para Cegos, atesta a dificuldade do acesso à Informação. Em 2007 a instituição produziu 3.453 títulos, nos quais se incluem desde a confecção de cardápios até a produção livros didáticos e de literatura.
“O primeiro passo para uma cidade ser mais acessível é a diminuição nas barreiras atitudinais e de comunicação”, pondera Suzete Rugno Arruda, Professora de Orientação e Mobilidade da Fundação.

"Capacitar e desenvolver uma expertise capaz de atender as demandas do mercado, gera inclusão."
(Carlos Ferrari - Vice presidente da AVAPE)

Capacitar para integrar
Para o diretor clínico da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) Antônio Carlos Fernandes, cuja clientela é formada por 75% de crianças e 25%
de adultos, a inexistência de locais de tratamento é um dos mais graves problemas enfrentados na cidade. “A legislação, já em 1946, dizia que todo deficiente tem direito a tratamento e educação, mas onde ele consegue tratamento?Temos hoje uma lista com mais de 4.600 pessoas esperando uma cirurgia gratuita. A espera para uma cirurgia para escoliose pode demorar 10 anos”, desabafa. Fernandes aponta ainda a necessidade de existir um equilíbrio
entre três pontos fundamentais para melhoria da qualidade de vida do deficiente: a existência de tratamento, educação e oportunidades de trabalho. “A lei (Federal 8.213/91), obriga empresas com 100 ou mais empregados a preencher de 2% a 5% de seus cargos com pessoas portadoras de deficiência, mas a maioria não tem acesso a tratamento, não tem transporte adequado, não consegue escolaridade, portanto, não arruma trabalho”.
Já o vice-presidente da AVAPE avalia que a medida trouxe uma grande melhoria no processo de inclusão dessa população no mercado de trabalho. “Capacitar e desenvolver uma expertise capaz de atender as demandas do mercado, gera inclusão”, destaca Ferrari.

Vontade política
Apontado por todos como um ator privilegiado para criar novas possibilidades e alternativas de inclusão para as pessoas com deficiência, o poder público deve
assumir a sua responsabilidade como gestor, articulando os diversos serviços existentes na cidade. Para o vice-presidente da AVAPE, Carlos Ferrari, o novo
prefeito deve assumir uma postura democrática e participativa.
“É preciso que o gestor público tenha a clareza da necessidade de ouvir o movimento organizado. Se ele tiver a humildade de fazer isso e conseguir otimizar todos os serviços existentes na cidade, já será uma revolução”,
finaliza Ferrari.

Os táxis adaptados como alternativa de transporte
Sempre presentes como uma excelente opção de transporte na cidade de São Paulo, os táxis estão assumindo um novo espaço no seu trabalho de prestação
de serviços. Com o lançamento do serviço de táxis adaptados, as duas maiores empresas do país no desenvolvimento de projetos de adaptação veicular, a Cavenagui e a Technobrás, oferecem produtos e serviços para taxistas e
pessoas com deficiência. Indicada pela Secretaria Municipal de Transportes para desenvolver um modelo de veículo específico para o cadeirante no projeto de táxis adaptados da cidade, com segurança e conforto, a Cavenaghi se apresenta ainda como um centro de referência em reabilitação e mobilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

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