“O Bixiga é um estado de espírito”

Apontado como o bairro mais cultural da cidade de São Paulo, o Bixiga foi
definido pelo saudoso Armandinho Pugliesi, um de seus mais ilustres moradores e idealizador do Museu do Bixiga, como sendo muito mais do que um bairro com uma geografia definida: “o Bixiga é um estado de espírito”,
profetizou.
Essa vocação natural pelo intangível tem início com a própria história da formação do Bairro, onde as versões se confundem. Até hoje ninguém sabe ao certo se a denominação “Bixiga” teve como origem o nome de um português dono de uma hospedaria no bairro, Antônio “Bexiga”, que tinha esse apelido por
ter o rosto marcado pela varíola, ou devido à própria epidemia da doença que nos anos de 1800 assolou a cidade e particularmente aquela região.
A partir de 1878 o bairro experimentou uma época de excepcional crescimento com a chegada dos imigrantes portugueses, espanhóis e principalmente italianos calabreses. Pequenos artesãos, comerciantes e praticantes
de outras atividades autônomas, esses novos vizinhos vieram se juntar aos antigos moradores do bairro, até então um reduto de ex-escravos e seus descendentes, além de homens e mulheres pobres vindos da zona rural.
Ali construíram um pólo inicial do trabalho livre e autônomo, que viria a marcar a vocação urbana do século XXI.

A arte e a boemia do Bixiga

Tradicional espaço libertário encravado no coração da cidade, até em suas ruas o Bixiga traz a idéia da liberdade: Treze de Maio e Abolição tratam da libertação dos negros; a Avenida 9 de Julho lembra a revolução constitucionalista, a Rua 14 de Julho é uma homenagem à queda da Bastilha e ainda a Rua Rui
Barbosa, uma referência a um dos brasileiros que mais lutou contra a escravidão no país.
Essa tremenda mistura de imigrantes europeus, negros e mestiços terminou por constituir uma comunidade cosmopolita, com uma multiplicidade de tradições e práticas culturais que até hoje é a marca registrada do bairro.
Em meio a toda essa efervescência cultural, no final dos anos 40, com a instalação do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, na rua Major Diogo, o bairro intensificou sua vocação artística e chegou a receber a título de “Broadway-Bixiga”, com a chegada de um grande número de teatros e casas de espetáculos. Hoje existem 16 teatros na região, com os mais diferentes espetáculos em cartaz.

O bairro das Cantinas

Uma mesa bem posta, comida farta para todos, alegria e ambiente de festa com todo mundo falando alto. Esse é o clima que o paulistano encontra nas muitas cantinas das ruas Treze de Maio, Santo Antônio, Rui Barbosa ou Conselheiro Carrão.
Um lugar especial para quem deseja saborear uma perna de carneiro, deliciosos antepastos com pão italiano, um frango assado desossado, um tradicional sanduíche de mortadela, ou mesmo um pedaço de pizza, com todo o tempero e tradição da saborosa culinária italiana.
Mesmo com as enormes mudanças que a cidade e o bairro experimentaram no decorrer dos anos, os restaurantes ainda ocupam os casarões das principais ruas do Bixiga e preservam o mesmo atendimento personalizado.

No Bixiga a escola dá Samba

A fundação da Escola de Samba Vai-Vai é um exemplo claro de como o bairro tem um modo muito particular de fazer as suas coisas acontecerem.
Por volta do ano de 1928 um grupo de amigos, ajudava a animar os jogos e festas do time de futebol e bloco carnavalesco da região que levava o nome de Cai-Cai. Porém, eram vistos como penetras e arruaceiros, e, ironicamente, foram apelidados como “a turma do Vae-Vae”.
Terminaram expulsos do Cai-Cai, e então criaram o “Bloco dos Esfarrapados”, e o “Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae”. Oficializado em 1930, com o passar dos anos o bloco ganhou força e hoje é o Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Vai-Vai, um dos maiores representantes do carnaval paulista,
com 13 títulos conquistados. Inserido na vida da comunidade, o Vai-Vai está
inaugurando uma nova etapa no seu trabalho com a criação do Movimento Cultural Vai-Vai Brasil, através do qual oferece aulas de dança afro, inglês e espanhol, percussão e capoeira, para crianças e adolescentes da comunidade.

Uma festa que realiza milagres

Não é possível falar do Bixiga e sua gente e não tratar da tradicional festa de Nossa Senhora da Achiropita, um dos eventos que mais atraem visitantes para o bairro. Tudo começou de modo muito simples, quando os italianos
do bairro, particularmente os calabreses, manifestaram o desejo de construir uma igreja para a Santa de sua devoção.
No início as mulheres faziam assados e comidas em suas próprias casas e os homens subiam em carroças para fazer o leilão. Eram leiloados cabritos, leitões e muitas outras comidas preparadas pelas mulheres. Em 1926 foi construída uma pequena igreja em homenagem à Santa e em 1949 foi inaugurada a igreja atual.
Idealizada para construir a igreja da Santa de devoção dos italianos, a festa hoje contribui para a manutenção e expansão do trabalho social realizado pela paróquia. São atendidos diariamente 450 crianças e adolescentes entre 06 e 15 anos de idade, 200 homens e mulheres moradores de rua, 170 pessoas da terceira idade e 194 crianças entre 0 a 06 anos de idade, além de outros trabalhos de assistência.

Um Novo Olhar sobre o Bixiga

Uma oficina de vídeo realizada no Museu do Bixiga pelo produtor cultural Paulo Santiago no ano de 1998 desencadeou uma inovadora ação sócio-educativa no bairro: a criação da Associação Novo Olhar, uma produtora social que investe na formação e capacitação de jovens no segmento audiovisual.
Esse mergulho na comunidade levou a Novo Olhar a firmar um termo de cooperação com a Via Cultural, uma organização não governamental que coordena projetos ligados às artes, para a realização do projeto “Memórias Construídas“ que, entre outras atividades, investirá na organização e restauro do Museu do Bixiga.
O Projeto propõe a restauração como ponto de partida para uma ação interativa de apropriação e valorização cultural e social dos jovens, além da realização de cursos de capacitação profissional.

A síntese da cidade

Bairro das cantinas italianas, da Festa da Achiropita, dos boêmios, da escola de samba Vai Vai, dos inúmeros teatros, do Museu do Bixiga, da Associação Novo Olhar: o Bixiga sintetiza a cidade de São Paulo por sua capacidade de fazer o coração paulistano bater em um compasso que navega entre a taratella e o
samba enredo.

IR PARA O SUMÁRIO DESTA EDIÇÃO

PÁGINA INICIAL