Motorista bem humorado é como salva-vidas
"Ô MINHA FILHA, DO JEITO QUE VOCÊ ATRAVESSA, ESSE TEU GUARDA-CHUVA VAI VIRAR MULETA, HEIN!"
Por Ivan Fonterón

Quarta-feira, 15h00, entre a Consolação e a Paulista, uma senhora caminhava, olhando pra baixo, como se conferisse os preços numa vitrine; na mão esquerda, cigarro e celular, e na mão direita, além da bolsa, um inútil guarda-chuva era arrastado. Claro que o sinal estava vermelho, claro que ela nem se importou com isso, e claro que só interrompeu sua gargalhada ao telefone, sabe-se lá com quem, quando se assustou com a freada violenta do motorista que não esperava o desatino daquela senhora na frente do seu ônibus. Assustada e nervosa, apontava o guarda-chuva para o motorista em tom de ameaça. O motorista pôs a mão na cabeça, e com aquela cara de ‘eu não acredito’, sentenciou debochado: “Ô minha filha, do jeito que você atravessa, esse teu guarda-chuva vai virar muleta, hein!” Além de estômago para ouvir os desaforos da ‘dona do mundo’, ainda teve a paciência de esperar que ela atravessasse com todos os seus adereços, reclamando como se todos fossem responsáveis pelos abusos dela!
Eu estava ancorado no trânsito e pude ver os detalhes. No final do dia, algo bem parecido aconteceu comigo: com o desdém estampado na cara, um rapaz de não mais de 20 anos, atravessou a avenida em que eu passava, com esses fones de ouvido que agora todo mundo usa e, fazendo pouco caso dos motoristas, dançava lentamente, passos de uma dança esquisitíssima! Ao passar por mim, ante minha cara de também ‘eu não acredito’, ainda me fez um sinal, mas com aquele dedo que não é pra chamar táxi. Não reagi, fiquei olhando pro cabelo dele que parecia bagaço de cana: se eu tivesse uma coisa dessas na cabeça, teria outros motivos pra ficar nervoso. Apenas olhei e dei um tchauzinho, mas ele não se tocou e seguiu com o seu bailado, sabe-se lá até quando, talvez até que algum motorista que não goste de música resolva tocar o gongo para esse dançarino engraçado, mas desmiolado.
Muitos ainda não se dão conta de que as placas, os semáforos, as faixas, as câmeras não são ímã de geladeira, nem espelhinho de feng-shui, e não estão por toda parte na condição de enfeite; um pouco de atenção, e de educação também, ajudariam bastante esses sortudos que só fazem adiar o momento dos seus acidentes. E, cá entre nós, não são poucos os pedestres que agem assim. Tanto é que até já escutei a idéia absurda de não sei quem resolver substituir as buzinas por jatos d’água... assim não dá!
Fica aqui um convite: tente observar aquele que está ao seu lado e veja se também você não faz o mesmo. Afinal, apostar somente no bom humor do motorista, é arriscar demais, você não acha?

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