Ela não conhecia a cidade nem sabia dirigir. Mas pegou firme no volante.
Por Ivan Fornerón

Karin Poernbacher Munhoz Couto
Idade: 37 anos
Onde mora: Consolação
Profissão: taxista

Karin nasceu em Porto Alegre, formou-se em Salvador e foi comerciante em Fortaleza. Chegou a São Paulo há dois anos, como quase todo o mundo que chega aqui: atrás de trabalho. No caso dela, uma vaga como secretária numa empresa. Mas, como nenhuma entrevista de emprego se mostrou promissora, resolveu dar ouvidos à estranha sugestão do cunhado, motorista de táxi: “Por que você não vira taxista?”.
Pois virou. “Gostei da idéia e pronto”, diz, sem meias palavras. Tomou a decisão sem ter carteira de motorista, sem saber dirigir e, pior, sem conhecer uma rua sequer da cidade.
Meros detalhes, que Karin tratou logo de acrescentar em seu currículo. Em menos de seis meses, aprendeu a dirigir, tirou a carta e fez um curso de formação para taxistas (de 4 a 6 horas diárias, durante mais de um mês). Só ficou faltando o mais importante: tornar-se íntima da cidade de São Paulo. “No meu primeiro dia na rua, eu estava completamente perdida. Nem sabia para onde ir.”
Hoje, de segunda a sexta, Karin percorre as ruas paulistanas o com a habilidade no volante que só um morador antigo da metrópole consegue demonstrar. Enquanto isso, coleciona histórias do banco de trás: maridos que se queixam das esposas, avós que brigam com as netas, executivos que exercitam sua tensão pendurados ao celular. “O melhor da profissão é que os passageiros e os itinerários mudam o tempo todo. É sempre imprevisível”, afirma. Sem falar na satisfação de ouvir de seus clientes que se sentem mais seguros sendo conduzidos por um taxista do sexo feminino.
Preconceito? Se houve, Karin nunca notou. Diz que sempre teve o apoio de seus colegas mais experientes e que jamais se sentiu discriminada por ser mulher numa atividade em que os homens somam mais de 95%.
E até acha certa graça nas cantadas que freqüentemente recebe dos passageiros, encantados com seu belo sorriso e seus olhos azuis. Entende como elogio, não dá bola e afirma que nunca precisou “descer do salto” para se fazer notar como profissional.
Como se não bastasse o batente de 10 horas diárias, Karin a inda é mãe de uma menina de 10 anos, com quem mora sozinha. Jornada dupla de trabalho, portanto. Enquanto a mãe trabalha, a garota passa o dia na escola e nas aulas de balé e natação.
As duas só se vêem às oito da noite, quando Karin chega em casa. A taxista ainda tem tempo para brincar com a filha, cuidar do lar e navegar pela internet, para manter-se sempre bem informada. Paciência, segundo ela, é o elemento principal para encarar o dia-a-dia. E afirma: “No trânsito, a mulher é a melhor”.

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